
Enquanto os aluguéis avançam quase três vezes mais que a inflação, cresce também o número de disputas judiciais envolvendo contratos de locação no estado do Rio
O mercado de locação residencial do Rio de Janeiro vive um momento de forte aquecimento. Nos últimos 12 meses, os aluguéis na cidade acumularam valorização de 13,7%, quase três vezes acima da inflação oficial do período, medida pelo IPCA, que ficou em 4,7%. A demanda segue elevada, enquanto a oferta de imóveis disponíveis permanece restrita em diversas regiões da cidade.
Mas, ao mesmo tempo em que o setor registra resultados positivos, um outro indicador chama atenção: o aumento das ações locatícias.
Levantamento do DATA SECOVI, elaborado com base em dados do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJ-RJ), aponta que foram ajuizadas 2.916 ações locatícias entre janeiro e maio de 2026. O volume representa crescimento de 15,3% em relação ao mesmo período de 2025, quando foram registradas 2.528 ações.
Embora o aumento dos processos possa parecer contraditório diante de um mercado aquecido, especialistas explicam que os dois movimentos podem estar diretamente relacionados.
“O mercado de locação vive um momento bastante dinâmico, com demanda elevada e valorização dos imóveis. Em cenários assim, é natural que questões envolvendo capacidade de pagamento, renegociação de contratos e cumprimento de obrigações ganhem relevância e acabem se refletindo nas estatísticas judiciais”, avalia Leonardo Schneider, vice-presidente de Locação e Comercialização Imobiliária do Secovi Rio.
Segundo Schneider, esse movimento ocorre justamente em um momento em que o setor vem ampliando o uso de tecnologias para análise de risco e concessão de garantias locatícias. Plataformas especializadas passaram a utilizar modelos mais robustos de avaliação do perfil financeiro dos candidatos à locação, cruzando informações cadastrais, histórico de crédito e capacidade de pagamento antes da aprovação dos contratos.
“Hoje o mercado consegue avaliar o risco de forma muito mais precisa do que há alguns anos. Isso torna a entrada de novos contratos mais segura, mas não elimina os impactos de mudanças econômicas ou de dificuldades financeiras que podem surgir ao longo da vigência da locação”, afirma.
Os números mostram que a principal origem dos conflitos continua sendo a inadimplência. Dos 2.916 processos registrados em 2026, 1.650 são ações de despejo por falta de pagamento, correspondendo a 57% do total.
Para Maurício Eiras, coordenador estatístico do Secovi Rio, o acompanhamento desses indicadores ajuda a compreender não apenas o volume de processos, mas também os movimentos do próprio mercado imobiliário.
“Os dados são coletados diretamente junto ao Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro e consolidados pelo DATA SECOVI. Quando analisados em conjunto com outros indicadores do mercado, eles ajudam a entender como as condições econômicas e imobiliárias impactam as relações entre proprietários e inquilinos”, explica.
Outro fator que ajuda a explicar o cenário é a redução da oferta de imóveis em algumas regiões da cidade. Com menos opções disponíveis e preços em alta, a troca de imóvel torna-se mais difícil para muitos locatários, aumentando a pressão financeira sobre famílias que já comprometem parte significativa da renda com moradia.
A capital concentra a maior parte das ações locatícias do estado. Entre janeiro e maio deste ano, foram registrados 1.611 processos nas comarcas da cidade do Rio, o equivalente a 55% do total. O Centro lidera o ranking regional, com 802 ações, seguido por Campo Grande (123), Barra da Tijuca (118), Méier (107) e Jacarepaguá (98).
Apesar da alta dos processos, a judicialização continua sendo, na maioria dos casos, a última alternativa. A negociação entre as partes e a atuação das administradoras seguem sendo fundamentais para a preservação dos contratos e para a redução dos conflitos.
Os dados utilizados neste levantamento são produzidos pelo DATA SECOVI, núcleo de inteligência imobiliária do Secovi Rio responsável pelo monitoramento dos mercados de compra, venda, locação e gestão condominial. O estudo é elaborado a partir de informações oficiais disponibilizadas pelo Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro.
Fonte: Secovi Rio